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SHODAN: a mais temível ferramenta de procura

Depois de apresentada em 2009 na DEFCON, Shodan foi chamada por muitos a mais assustadora search engine da Internet. Mesmo com a maturidade da ferramenta que hoje podemos constatar trata-se de um exagero. Na verdade, Shodan nada mais é que uma ferramenta de procura por dispositivos na rede Internet, aquilo que muitos gostam de chamar de "internet das coisas", - o que é apenas uma metáfora mercadológica, diga-se de passagem, porque o TCP/IP, salvo melhor juízo, não distingue coisas e pessoas. Mas o termo colou e é usado correntemente. Assim o Shodan apresente como sendo: the world's first search engine for Internet-connected devices.

A riqueza do protocolo TCP/IP é ser uma plataforma aberta,. Em suas camadas mais altas, onde se localizam os serviços, e onde o usuário efetivamente interage, é possível inserir e criar, na medida da inventividade humana, várias aplicações. E é por isso que tantos e tantos usos apareceram ao longo dos anos, dada esta flexibilidade que é própria do protocolo que dá vida as redes na Internet.

O aplicativo Shodan trabalha lendo os cabeçalhos HTTP e outras informações abertas nos dispositivos conectados. Ele produz um "fingerprint" de tais dispositivos e então podem indexá-los por dados como país, sistema operacional, marca, etc. Como por exemplo aqui destacado, um dos resultados para a procura por "video web servers":

--- VIDEO WEB SERVER --- 99.59.242.113 adsl-99-59-242-113.dsl.pltn13.sbcglobal.net AT&T Internet Services Added on 2015-07-14 12:02:08 GMT United States - United States Details HTTP/1.1 200 OK Connection: close Cache-Control: no-cache Server: SQ-WEBCAM CONTENT-LENGTH:2936

As possibilidades desta plataforma podem assustar os mais radiciais, mas creio que como David Holmes destacou em artigo no site Security Week: "Manufacturers can use Shodan to locate unpatched versions of their software in IoT devices. And Sales can use it to identify new customer opportunities. One Shodan query shows the number of HP printers in need of toner across ten different universities".

 
Revisão v. 2.1
 

Das moedas fantásticas na Internet

Nos últimos anos vimos o fantástico aparecimento de moedas de vida eletrônica na Internet, a mais badalada é o bitcoin. Agora Vitalik Buterin deseja inventar outra: o ether. Desde a idade de 17 anos, este canadense morador de Toronto, era apaixonado pelo bitcoin, sem dúvida alguma a principal moeda que circula no mundo Internet. Chega mesmo a participar de projeto de criação de um sistema de transações em bitcoins que se quer "anônimo e indetectável". Mas de imediato chega a conclusão que o sistema é imperfeito e limitado. No fim de 2013 decide então inventar sua própria solução de cripto-moeda, que será baseada em algoritmos ainda mais sofisticados. Ele a chama de ether — nome do que outrora se considerava como uma entidade invisível e impalpável que englobaria o universo1.

Para dar vida a seu projeto, montou um start-up, o Ethereum. Recebe uma bolsa da Fundação Thiel (California) reservada aos jovens pesquisadores independentes: US$ 100.000 em dois anos, mais uma rede de contatos no Silicon Valley. Mas Vitalik Buterin conta principalmente com suas próprias forças. Em julho de 2014, inicia a pré-venda dos futuros ethers contra os bitcoins:

« Descobri um bocado de gente que acreditava no meu projeto. De início, fixamos uma taxa de 2.000 ethers para 1 bitcoin, mas rapidamente a demanda se reforçou, a taxa subiu para 1.300. »

Em seis semanas, o financiamento participativo inédito lhe entrega mais de 31 mil bitcoins, isto é, mais de 18 milhões de dólares.

***

Sobre o tema quero chamar à atenção do leitor para dois temas.

(1) Será que o liberalismo mais radical conseguirá realizar seu desiderato, a saber, criar um moeda independente do Estado, do poder governamental? Como sabemos o Banco Central, por exemplo em nosso país, mas em muitas nações, tem como tarefa o monopólio de emissão do papel-moeda, além de executar serviços de saneamento do meio circulante. Interessante é se notar que muitos chegam a ver em tal proposta algo libertário ou coisa que o valha, ainda que a matriz ideológica do anarquismo e do liberalismo tenha alguns pontinhos em comum.

(2) Mais uma vez a idéia de "anonimato" levada ao seu paroxismo, pode levar a graves consequências, mas ainda quando associada fortemente ao desejo de transações em rede indetectáveis. O que só facilitaria os processos tão danosos de lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico, do tráfico de armas, da corrupção, e por aí vai...

As coisas que parecem à primeira vista tão simpáticas devem sempre merecer um juízo mais crítico.

 
Revisão v. 1.2
 
  1. “Éter é palavra de origem grega: aithér, que significava, primitivamente, uma espécie de fluido sutil e rarefeito que preenchia todo o espaço e envolvia toda a terra (ubiqüidade: o estar em toda a parte a todo o tempo).
    Os gregos, fazendo uso da linguagem, compuseram esse termo, provavelmente, a partir de aeí ("sempre"), e de theîn ("correr"); aquilo que sempre corre, o que está em perpétuo movimento.”; http://www.orgonizando.psc.br/artigos/hst-eter.htm []

Os Mitos sobre Capitalismo e o Fenômeno da Internet

Recentemente li com prazer brilhante artigo jornalístico do Dr. Marcelo Bechara1 recentemente publicado. À parte a concordância com o teor do artigo, chamou-me à atenção uma referência em especial:

O professor de direito de Harvard Yochai Benkler defende que a interação colaborativa pela internet constrói, inclusive, um novo sistema econômico, a transformar o capitalismo. A produção comunitária por meio da rede passou a ser significativa a ponto de impor mudanças sociais.

Este é a meu ver um dentre os grandes mitos dos tempos atuais. Confesso que não sei se o Sr. Benkler possui algum estudo, sociológico ou econômico de fôlego sobre o tema, que termine por demonstrar sua tese. Ou se fica apenas no campo do dever-ser, da vontade ou do proselitismo. Então, confesso ao leitor de antemão que não sei se o autor desenvolveu algum estudo empírico que nos mostre a derrocada do modo capitalista de produção a partir de novos regimes que se adotam no mundo, regimes de produção e licenciamento de software ou bens imateriais, do desenvolvimento de software de maneira coletiva, ou "compartilhamento" e/ou troca de música, etc., tudo isto usando a Internet como veículo ou, digamos, o seu lugar. E que ao fim deste estudo possa suspirar, afirmando sua tese, e repetir a sentença de Euclides, quod erat demonstrandum. Até lá, frases deste teor não passam de mitos, simpáticos para uns e antipáticos para outros tantos — como muitos outros mitos que encontramos na história social, e podemos até mesmo dizer, sem medo de errar, que história é cheia deles...

Em entrevista recente para o jornal Die Zeit alemão, Michael Hardt2, ao ser perguntado se a Internet revela as fraquezas do nosso sistema econômico?, respondeu: "evidentemente que sozinha não".

Recebi recentemente a igualmente brilhante tese de doutoramento Evaluating Neutrality in the Information Age On the Value of Persons and Access (2013), defendida no Oxford Internet Institute, e ainda em fase de publicação, de meu amigo Dr. Marcelo Thompson (ex-Procurador-Chefe do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação - ITI), hoje Professor da Universidade de Hong Kong. Numa nota pode se ler:

"In The Wealth of Networks and in earlier works, Benkler speaks of a new model of commons-based peer production or, more broadly, of social production, as a social-economic phenomenon that provides a thirdway alternative to the traditional models of markets and firms — an alternative of systematic advantages for dealing with information and culture as objects of production."

Pode ser até que esta forma de produção baseada em rede (peer) seja um fenômeno presente na moderna sociedade da informação, no mundo das Redes que hoje vivemos, mas este "fenômeno econômico-social" cooperado está longe de ser a forma de produção dominante em nossos dias. Concordo com Sennett que estes movimento de colaboração open source estão mais próximos do que se chama artesanato. Artesania e cooperativas existiram sempre e existem no seio da sociedade capitalista, onde vige o trabalho assalariado formal, mas de forma fragmentária e residual. Resume Sennett:

"...é uma comunidade de artesãos para o qual a antiga palavra demioergoi3 pode ser aplicada. Ela é focada na realização de qualidade, fazendo um bom trabalho, que é a marca de identidade primordial do artesão. No mundo tradicional do oleiro arcaico ou o curandeiro, padrões foram feitos pela comunidade para um bom trabalho, assim como as habilidades (skills) passam de geração a geração."4

Mas, dever-se-ia, de fato, e inicialmente, pôr a pergunta: "o que é o capitalismo?". Se todos estes fenômenos atualíssimos concorrem para seu fim, devemos então saber o que ele é. Depois de conceituá-lo buscar elementos na realidade social e econômica. Não sei dizer, nem encontrei elementos, sobre o conceito de capitalismo do autor citado. O meu conceito de capitalismo, posso dizê-lo, é o do marxismo, ainda é o do materialismo histórico. Ainda que seja fruto do século XIX, ainda podemos definir o sistema econômico capitalista como vigência da relação de trabalho assalariada.

"Este é o ponto — assinala o economista Maurice Dobb — que assinala a diferença essencial entre a relação social típica da sociedade capitalista, e a que caracterizava as primeiras formas de sociedade de classes."5

No entanto, pode-se defini-lo, ao gosto do cliente, e inversamente, pela presença economia monetária, pelo "vontade de lucro". ou coisa que o valha, por certo consumismo, ou pela presença de uma certa racionalidade, uma "racionalidade conforme fins", — definição, diga-se, típica da sociologia weberiana. Por conseguinte, o que define o capitalismo é a presença hegemônica, grife-se, do trabalho assalariado. O que forma as relações sociais que estão na base deste sistema. As redes sociais e a internet jogam um papel importante, o que inegável, e os fatos mesmo o comprovam de forma muito objetiva. Mas só podemos falar metaforicamente numa economia digital, pois não se pode constatar ainda a alteração da base social do capitalismo. Na verdade o que mais tem notabilizado as redes sociais está mais próximo de algo superestrutural, político e cultural, do que propriamente econômico strictu senso. Está mais perto, em síntese, do que Rawls chamou em seu trabalho clássico: o justo (fair) valor da liberdade política6.

Hobsbawn tem razão ao dizer que para se entender a capacidade transformadora da história humana o "conceito de trabalho social em geral é essencial"7. Onde na Sociedade da Informação, da presença da Internet e seu commons há a extinção da forma de trabalho assalariada? Seria o "Pirate Bay" a derrocada do capitalismo? Sinceramente não há elementos concretos para tanto. Mas, não faço futurologia, assim não saberia dizer passados uma ou duas décadas o que ocorrerá...

 
Revisão v. 2.0
 
  1. Ver em Marcelo Bechara de Souza Hobaika: do 11 de setembro às eleições de 2014. []
  2. Co-autor de Empire com Negri e professor da Universidade de Duke. []
  3. δημιουργός: criador ou artífice, celebremente tratado por Platão no diálogo Timeu, 28c-29a. []
  4. R. Sennett. The Craftsman, p.25. []
  5. Marx as an Economist, II. []
  6. Cf. Théorie de la Justice, ed. francesa, cap. V, 43. []
  7. Marx et l'Histoire, ed. francesa, p. 64. []

“Direito ao esquecimento digital”: Por favor não me apaguem nada

Um tema que venho me debatendo é o tal direito ao esquecimento digital1. Se não fossemos tão historicamente afeitos a copiar coisas do hemisfério norte, não me importaria tanto com mais esse "modismo" tolo.

Li recentemente artigo de Fabienne Dumontet no Le Monde2 sobre este tema. Ali a autora nos diz que o direito ao esquecimento digital, l'oubli numérique, inquieta aos historiadores. Com toda a razão, pois é um direito individual que se aplicado eliminaria das gerações futuras as memórias vividas.

Diga-se que o tema da "vida privada" é norte-americano por excelência. Lá no fim do século XIX, a empresa Kodak conhece um sucesso tremendamente popular com maquinas fotográficas pequenas baratas e fáceis de usar. Alarmados com esta facilidade em invadir à vida privada-individual, dois juristas norte-americanos, Samuel D. Warren e Louis D. Brandeis em 1890, se rebelam a tal estado de coisas na Harvard Law Review.

That the individual shall have full protection in person and in property is a principle as old as the common law; but it has been found necessary from time to time to define anew the exact nature and extent of such protection.

O artigo permanece famoso, The Right to Privacy3, lançam um conceito jurídico que se enraíza na vida social americana e se quer atual, neste momente onde a "vida privada" parece ameaçada, pelas Redes e seus "pacotes de dados digitais", exibidos mais do que nunca nesta rede poderosa chamada Internet. Para nos proteger deste "abuso", um novo "direito ao esquecimento digital" aparece, que garantiria — a meu ver, catastroficamente — a supressão de nossos dados pessoais à distância.

 
Revisão v. 1.1
 
  1. O tema já foi tratado aqui []
  2. Le "droit à l'oubli numérique" inquiète les historiens. []
  3. Harvard Law Review. Vol. IV, December 15, 1890, No. 5. []
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