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Sociedade da Informação: para onde vamos

Professor Trevisan me convidou tempos atrás para trabalhar numa publicação. A prática sem reflexão teórica é muitas vezes cega. Por isso é tão importante nós que trabalhamos ao longos dos anos com sistemas de informação, termos a paciência de escrever sobre a lida que tivemos através dos anos, e, por conseguinte, superar a prática cega, o trabalho baseado na intuição e na singela aparência. As tecnologias da sociedade são profundamente impactantes na vida social e demandam uma reflexão mais apurada dos seus impactos sociais e econômicos

Pois bem, este nosso trabalho agora publicado é um pouco deste esforço. E assim apresento ao visitante que se interessar para que visite o site da editora e quem sabe se interesse por nossa publicação.

"a civilização industrial não é de forma alguma uma formação social harmoniosa,
sem conflitos e sem história.
" (Alain Touraine)

"A sociedade da informação – a era do conhecimento e da informática –
tem movimento, tem história, e ali há conflitos que se explicam pelos modelos
sociais onde florescem. As redes, as redes sociais, a internet, enfim,
todo esse movimento que floresce nos dias de hoje configura um cenário
de impulsos mais libertadores que repressores. No entanto alguns e de forma
obtusa chegam a propor – como já foi exposto –, o que é um equívoco
e modismo singelo, que a internet é a causa das transformações na concepção
de trabalho, democracia, economia etc. Toda a análise causalista,
permitam-nos essa démarche metodológica, é por demais simplória porque
tende a ser reducionista, não observa os fenômenos da sociedade do
ponto de vista da diferença, mas de uma identidade forçada.
" (p. 36)

http://www.trevisaneditora.com.br/produtos?novidades=1

 
Revisão v. 1.0
 

Os computadores. Pior do que idéias ruins são os modismos de idéias

Antes da sociedade da informação, do mundo da internet, digamos assim para facilitar , o mundo dos computadores, dos cérebros eletrônicos da cibernética, como algo aterrorizador, posto que faria da vida comum algo mecânico e frio. Nos anos sessenta, talvez alguns se lembrem de uma velha canção de Taiguara que dizia: programar o amor em seus computadores. Este verso singelo expressa bem este espírito. Também era uma visão muito difundida, está na obra de Marcuse, por exemplo, a visão que a tecnologia, mais do que aumentar o domínio do humano sobre a natureza, faria ela também aumentar o domínio do homem sobre o homem.

Inquestionável que a tecnologia da informação trouxe uma visão mais luminosa à tecnologia e mesmo libertadora. As redes, as redes sociais, a Internet, enfim, todo este movimento que floresce em nossos dias, são impulsos mais libertadores que repressores. Alguns chegam a ver, e o que a meu ver é um equívoco e modismo singelo, na Internet causa das transformações na ideia de trabalho, democracia, de economia, etc.

Mas, incrível como Michel Tournier muitos anos antes conseguiu vislumbrar a capacidade da Web em vincular, indexar e registrar fatos da vida pessoal e coletiva, o que pode gerar, talvez, pulsões que nos levem a forças tremendamente repressoras.

Os computadores apresentam um perigo para a sociedade futura? Acredito que há poucos riscos que os computadores mais inteligentes, que os homens mais dotados, se beneficiem disto para tomar a direção dos assuntos do mundo e reduzam o homem à escravidão. E, aliás, se assim fosse, não seria melhor em suma que o mundo fosse dominado por um robô, se este robô fosse mais sábio que o mais sábio dos homens? Penso que o perigo está alhures. A única faculdade que possui o computador num degrau sobre-humano é a memória. Ora, a acumulação do passado é em certos limites um trunfo importante, mas é também um fardo, um balastro que na natureza muito sabiamente se libera para cada nova geração já que o saber dos pais não se transmite hereditariamente aos filhos. Há na França uma infâmia no sistema judiciário que palidamente prefigura o flagelo que poderia se tornar o computador, é a instituição da ficha judiciária e sua liberação por registro sob demanda. Graças a ela, um homem que foi condenado e que pagou sua pena continua a trazer com ele uma indignidade que o condena ao desemprego e à reincidência. Pouco se imagina o que tornar-se-á nossa vida quando um robô registrar todos nossos atos, todas nossas palavras e nos confrontará incessantemente com esse peso morto esmagador e ameaçador. A faculdade de tudo apagar e de começar de novo, é infinitamente preciosa e se incarna no nascimento da criança e mais modestamente no sono noturno e no despertar de manhãzinha. O homem que possuísse uma faculdade de esquecimento total, a amnésia absoluta, seria imortal. (Journal Extime, pp.234-5.) Pensamos num bom tirano que suprimiria com um rabisco o estado civil, a cédula de identidade, passaporte, registros de toda ordem, fichas judiciárias, em suma, todo este fantasma de papel cuja utilidade supondo que exista é sem relação com o trabalho e os vexames que ela custa. (Le Roi des Aulnes, ed. Folio/Gallimard, p.65)

 
Revisão v. 1.0a
 

Wittgenstein: Lógica, Metamatemática e Linguagem

«Les mots qui vont surgir savent de nous des choses que nous ignorons d’eux.»
-René Char

(1)

Bernard Stevens num sugestivo artigo de 19951 situa o empreendimento de Wittgenstein em relação a nossa época. Introduz o tema fazendo uma longa referência à tendência anti-fundacionalista de nossa época, — que de resto, atesta tão-somente a sua tendência anti-metafísica. Para tanto se refere longamente a um ensaio de Jean Ladrière2. O ensaio de Ladrière teria pintado um quadro exato das tendências epocais do pensamento do século XX; para ele o início de nosso século teria expressado três empreendimentos especulativos que visavam de forma essencial a "ideia de fundação", a saber, a metamatemática (como expansão da "metodologia das ciências dedutivas" como asseverou Tarski3 ), o atomismo lógico e a fenomenologia. A metamatemática de Hilbert, enquanto formalização das matemáticas4, que desejara dar às matemáticas uma "base sólida de onde pudessem derivar operações perfeitamente controláveis e evidentes", e que o próprio Wittgenstein, nos anos 1929-1931, viria a desconfiar da legitimidade do termo.

"Posso jogar o xadrez de acordo com certas regras. Mas também posso inventar um jogo no qual jogo com as mesmas regras. As peças em meu jogo agora são as regras do xadrez e as regras do jogo, digamos, são as regras da lógica. Neste caso tenho ainda outro jogo e não um metajogo. O que Hilbert faz é matemática e não metamatemática. É outro cálculo. apenas como qualquer outro."5

O atomismo lógico de Russell que igualmente desejara fornecer o modelo lógico de um empreendimento que levasse ao esclarecimento de "todas as operações possíveis do pensamento". E, por fim, a fenomenologia de Husserl ambicionara a tarefa da reconstrução integral e radical da experiência. Em todos estes empreendimentos se observou a busca de uma "região" que funcionasse como um fundamento a partir do qual uma disciplina fosse construída, mas de maneira que dela estivesse excluída toda ambiguidade. Mas, ao fim e ao cabo, conclui Ladrière, tudo isso se encerrou num como que questionamento da ideia de fundamento. A metamatemática se bateu contra as limitações do formalismo, o atomismo lógico terminou num abandono da investigação dos elementos últimos em benefício de uma "concepção contextual", e o próprio projeto husserliano foi bastante reorientado para uma hermenêutica inesgotável da existência e da história. Ladrière nota ainda que o próprio "campo científico" acompanha tal tendência, que ele chama de um "processo mais profundo", de um retrait du fondement. Assevera nosso autor: os fenômenos da ciência até podem ser interpretados num corpo teórico que sustente uma certa coesão interna, inobstante esta teoria jamais alcançará um substrato indubitável.

(2)

A ideia mesma de um fundamento seria a consequência óbvia de uma "ontologia da substância", tal como foi concebida pela metafísica ocidental. Stevens acredita que esta ontologia se acha na estrutura da língua. Sobretudo, em seu papel "atributivo", a substância é o suporte do atributo. O suporte (ou o sujeito) é sempre a base de propriedades mutáveis e não-essenciais que podemos atribuir às coisas. O sujeito da proposição, a substância, é sempre autárquico. diz Stevens:

"Seja numa lógica das proposições ou de uma ontologia do real, o que é investigado na cadeia das proposições, onde um suporte se apóia cada vez sobre um outro mais fundamental, é bem a regressão até um suporte que seja um termo último de ancoragem."6

Este suporte, ou mesmo, esta substância, é uma entidade real e irredutível, — que, absolutamente autônoma e numa "auto-posição", se descobre como o termo de uma caminhada, seja ela analítica ou sintética. A substância nestes termos não poderia ser outra coisa senão fundamento. O que foi sacudido nesta ideia de fundamento foi este caráter de irredutibilidade, e sua pretensão a ser uma dimensão autárquica. Com efeito, está totalmente fora das pretensões de nosso século a "parada na regressão a qualquer fundamento último". Só estamos autorizados a falar agora, diz Ladrière, numa configuration stabilisée, o saber humano só poderá aspirar a uma "concreção fugaz". Porque o ser não é mais a forma primordial que põe autarquicamente, tal como uma potência fundadora última, mas sim o que "se torna (advient), mas sem que esse devir (advenir) possa ser ligado à operação de uma origem".

(3)

Seguindo os passos do ensaio de Ladrière, Stevens ressalta que o "signo-testemunho" e mais arquetípico da mutação epocal que se descortinou em nosso século está sem dúvida na "virada operada no seio da filosofia linguística", — a virada de uma "redução logicista" para uma "analítica contextual". É aqui que a análise de Stevens encontra a filosofia de Wittgenstein, relativamente a filosofia heideggeriana marcadamente desveladora de uma "interpretação global do destino da filosofia ocidental":

"Assim se precisa nosso empreendimento a partir do quadro geral de uma descrição do fenômeno contemporâneo da "retirada do fundamento", nós retemos deste fenômeno, de uma parte a figura que parece ser o sintoma mais evidente (Wittgenstein), e de outra, aquele que parece ter operado a auto-interpretação historial mais lúcida (Heidegger)."7

O cotejamento das filosofias de Heidegger e Wittgenstein, acredita Stevens, deve ser seguido a parir do caminho aberto pelo célebre trabalho de Karl Apel8, — confrontá-los dentro de um movimento de ultrapassamento da metafísica tradicional9. Mas sem jamais perder de vista filiação de Wittgenstein à tradição filosófica anglo-saxônica.

O atomismo lógico foi uma formulação muito mais afeita aos temas da epistemologia, ou se quisermos, — ainda que polêmico — da ontologia, do que da lógica propriamente, mesmo que os autores vejam naquele a aplicação das formulações lógicas anteriores de Russell. Nas palavras do próprio autor, seria esta lógica atomística, então:

"Quando digo que minha lógica é atomística, quero dizer que compartilho da crença comum (common-sense belief) que há muitas coisas separadas; não observo a aparente multiplicidade do mundo como consistindo meramente em fases e divisões irreais de uma Realidade única e indivisível."10

Estes átomos ou facts, seriam, elementos últimos, como que the sort of last residue in analysis:

"A razão que chamo minha doutrina atomismo lógico é porque os átomos que desejo alcançar, como que a forma de último resíduo na análise, são átomos lógicos e não átomos físicos." 11

O Tractatus Logico-Philosophicus foi a tentativa mais significativa e, ao mesmo tempo, mais ambígua de sistematizar a filosofia do atomismo lógico. Foi o momento em que a civilização ocidental parecia ter suas bases "bases espirituais" destruídas, que o Tractatus Logico-Philosophicus encontrou o seu pano de fundo histórico. Nunca o Ocidente conhecera de tão radical questionamento de suas bases de pensamento. Enquanto se observou ações marcadamente niilistas, o Tractatus Logico-Philosophicus surgia, então, como uma tentativa de erigir um fundamento para o saber, fazendo com que de certa forma a ideia de fundação estivesse aí presente e com toda a força. No entanto, há uma ambiguidade em todo este projeto, adverte-nos Stevens. Apesar da aparência de uma ambição fundadora, o Tractatus Logico-Philosophicus já preparava a "retirada do fundamento".

(4)

Stevens mostra que o Tractatus se liga a uma tradição que atara a filosofia à lógica, — e a lógica refere-se mais intimamente à linguagem. O prefácio do Tractatus é lapidar ao dizer que o questionamento dos problemas filosóficos "repousa na má compreensão da lógica de nossa linguagem"12. O problema da filosofia terá de ser resolvido, por conseguinte, em termos de linguagem. Se a filosofia se ocupa do que é mostrável, mas indizível, já as ciências naturais podem se ocupar do que pode ser dito. Com efeito, não é tarefa da filosofia a elaboração de um saber, tal como nos diz a conhecida démarche wittgensteiniana: a filosofia não é uma ciência natural, e nunca poderá estar "ao lado das ciências naturais", — "a finalidade da filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamento", por isso o resultado desta "atividade" não resultará em proposições, mas sim no seu esclarecimento13; acrescenta Stevens: o esclarecimento das "proposições onde se exprime o pensamento":

"[A filosofia] determina os limites das ciências; ela deve determinar do interior os limites do que pode ser pensado, e, por aí, ela "significa" (bedeuten) o indizível."14

O Tractatus seguindo a tradição do atomismo lógico russelliano procurou estabelecer uma espécie de linguagem perfeita e suas relações com o mundo: "ambos os 'indivíduos' de Russell e meus 'objetos' (Tractatus Logico-Philosophicus) foram tais elementos primários", enfatizou Wittgenstein nas suas Investigações Filosóficas15. Uma "língua logicamente perfeita", define Stevens, é uma língua composta de elementos simples (os símbolos) tendo um sentido ou referência que não admite ambiguidade e que, enfim, deve ser regida por regras de combinação que visam evitar toda contradição. Tal é o "ideal de toda a linguagem", e ela deve se aproximar deste desiderato. Nesta relação da linguagem com o real, se a linguagem pode negar ou afirmar os fatos, deve haver, conclui ainda Stevens, uma espécie de "comunidade de estrutura entre a proposição e o fato"16. Assim existiria entre a linguagem e a realidade uma comunidade que somente admite ser mostrada, e que jamais poderá ser expressa numa outra linguagem17.

(5)

Todavia o Tractatus gerou uma curiosa situação. Pois o rigor do Tractatus empobrecera a linguagem de tal forma que a linguagem se tornou inepta para dar conta do seu papel primordial: "clarificar o sentido dos enunciados". Desta forma, todas as proposições do Tractatus falam algo sobre o que não pode ser dito, referem-se sempre a uma estrutura comum ao mundo e à proposição; a linguagem em geral e ao mundo enquanto totalidade. Apel, por sua vez, mostra que as sete proposições fundamentais que são estabelecidas no Tractatus contém o "autêntico motivo fundamental" da obra wittgensteiniana "a suspeita de falta de sentido frente a todas as proposições metafísicas"18. As proposições de Wittgenstein não fazem afirmações sobre fatos empíricos do mundo, mas sim fazem "a priori afirmações válidas sobre o mundo em sua totalidade", ou ainda, sobre a maneira da representação do mundo e sobre sua própria condição de possibilidade. Todavia, assevera Apel com a concordância de Stevens, as sete19 teses principais do Tractatus são exemplos claros das proposições sem sentido da metafísica tradicional. A tese que nos diz que o "mundo é tudo que ocorre" e o "o que ocorre, o fato, é o subsistir dos estados de coisas" caem inapelavelmente na suspeita de falta de sentido de todas as proposições da metafísica, pois segundo sua intenção são "afirmações sobre o mundo em sua totalidade", ou seja, sobre a forma a priori do mundo, conclui Apel.

Ora, Wittgenstein está longe de ser um pensador ingênuo, — por isso mesmo Stevens nos diz que a "coisa é tão evidente que é desejada por Wittgenstein"20. A importância ainda de tais démarches é que aqui se anuncia a "virada"; o Tractatus não "diz" ainda que "mostre-o":

"Nesta obra é levada até as suas possibilidades extremas a ambição logicista de toda uma tradição filosófica ocidental herdeira do aristotelismo. Trata-se de estabelecer as condições necessárias para que uma tal ambição pudesse se realizar em função de sua sistemática, de sua coerência interna."21

A "ambição sistemática" do Tractatus repousa numa "vontade de clareza ideal", tal como desejara o logicismo, e, também, a vontade de "auto-fundação" do pensamento. Esta vontade acaba por tomar o lugar do mundo ao representá-lo numa imagem, o que traz uma perda do "fenômeno do mundo". Se o Tractatus de certa forma desmonta a ambição logicista ao reforçá-la, as Investigações Filosóficas condenaram in limine a utilização abusiva da linguagem22. Num dos estudos preliminares para as Investigações Filosóficas, ele afirmara:

"A filosofia, tal como nós usamos a palavra, é a luta contra a fascinação que formas de expressão exercem sobre nós."23

Ou ainda, como é dito nas próprias Investigações Filosóficas:

"A filosofia é uma batalha contra o enfeitiçamento de nosso entendimento pelos meios de nossa linguagem."24

A filosofia, se ainda lhe sobra algo, não deve mais remontar a princípios últimos que desconheçam a própria realidade que aqui se descortina. A crítica das Investigações a um ideal de exatidão recebe exatamente o mesmo tratamento, qual seja, a lógica tornou-se sublime por tal ideal, por uma profundidade especial, uma "significação universal", e ela deve portanto estar na base de todas as ciências:

"Pois a investigação lógica explora a natureza de todas as coisas. Procura ver as coisas a fundo, e não deve preocupar-se com isto ou aquilo do acontecimento concreto."25

Ao agir desta forma qualquer investigação recusa uma certa "textura" do real. Mas o ideal de Wittgenstein é outro: queremos, afirma nosso autor no mesmo passo, compreender algo que "já esteja diante de nossos olhos". termina ainda por afirmar:

"A filosofia simplesmente coloca as coisas diante de nós, e nem explica nem deduz nada. — Uma vez que tudo fica em aberto, nada há para explicar.Pois o que é oculto, por exemplo, não nos interessa."26

Não se trata, diz, por fim, Stevens, de regular a linguagem numa lógica que lhe é absolutamente heterogênea, mas sim "de descrever cada jogo de linguagem particular afim de deixar falar o que nele se diz"27.

 

 
Revisão v. 3.150
 
  1. "Wittgenstein dans l'économie de l'histoire de l'être". Manuscrito, 2(1995). Referência on line aqui []
  2. "L'Abîme". In: Savoir, Faire, Espérer. Les Limites de la Raison, Tomo I, publications des Facultés Universitaires Saint-Louis, Bruxelles, 1976, pp.171-191. []
  3. Cf. A. Tarski. Introduction to Logic and the Methodology of Deductive Sciences. New York, Oxford University Press, 1965, p. 140 []
  4. "Há de se distinguir com rigor entre a linguagem simbólica de um cálculo e a linguagem acerca do cálculo, ou seja, a linguagem acerca das expressões, teoremas, etc., do cálculo: esta última linguagem se chama metalinguagem correspondente ao cálculo — que pode ser, ora uma parte da linguagem ordinária ..., ora uma linguagem que esteja por sua vez formalizada, mas então com símbolos inteiramente distintos dos da linguagem do cálculo (assim, a a metamatemática corresponde a algumas matemáticas formalizadas)". D. Hilbert & W. Ackermann. Elementos de Lógica Teórica. Madrid, Tecnos, 1993, pp. 182-3. Cf. também M. Cacciari. Krisis. Ensayo sobre la Crisis del Pensamiento Negativo de Nietzsche a Wittgenstein. México, Siglo Vientiuno, 1983, pp.78ss. []
  5. Philosophical Remarks. Oxford, Blackwell Publishers, 1997, p.319. []
  6. Art. citado, p. 215. []
  7. Art. citado, p.217 []
  8. Cf. trad. espanhola: "Wittgenstein y Heidegger: La pregunta por el Sentido del Ser y la Sospecha de Falta de Sentido contra toda Metafísica". Dianoia, 13(1967), pp.111ss. []
  9. Cf. id., p.113: "O ponto de referência comum em conexão com nosso problema é a colocação em questão da metafísica ocidental como ciência teórica ... desejo comparar Heidegger e Wittgenstein entre si do ponto de vista de que através de ambos, cada um de forma diferente, a metafísica ocidental é colocada em questão". []
  10. "The Philosophy of Logical Atomism". The Monist (Oct 1918, Jan, April, July 1919), p.496. Visite aqui para uma interessante introdução ao atomismo lógico de Russell. []
  11. Id., p.487. []
  12. Tractatus Logico-Philosophicus. São Paulo, Companhia Editora Nacional-EDUSP, 1968, p.53. []
  13. Id., p.76 []
  14. Art. cit., p.219 []
  15. Philosophical Investigations (Second Edition). Oxford, Blackwell Publishers, 1997, p.21. []
  16. Art. citado, p.220 []
  17. Cf. The Blue and Brown Books. New York, Harper Torchbooks, 1965, p.17 []
  18. "Wittgenstein y Heidegger...", p.115. Adam Schaff ressaltou que o neopositivismo não foi tão-somente a tese que "somente e apenas a analise da linguagem possibilita a diferenciação entre sentenças com sentido daquelas sem sentido (da metafísica), e que, por conseguinte, a linguagem é o único objeto da filosofia", — mais que isso, trata-se de uma "virada" no próprio objeto do conhecimento filosófico; ver: Sprache und Erkenntnis. Wien, Europa Verlag, 1964, p.55. []
  19. São elas: 1-"O mundo é tudo o que ocorre". 2-"O que ocorre, o fato, é o subsistir dos estados de coisas". 3-"Pensamento é a a figuração lógica dos fatos". 4-"O pensamento é a proposição significativa". 5-"A proposição é uma função de verdade das proposições elementares...". 6-"A forma geral da função da verdade é [p,ξ,N(ξ)]". 7-"O que não se pode falar, deve-se calar". Págs. da tradução brasileira: pp.55, 61, 70, 112 e 129. []
  20. Art. cit., p. 221 []
  21. Art. cit., p.221. []
  22. Como diz Ernest Nagel: "A filosofia tradicional, segundo Wittgenstein, é uma mélange de problemas, sendo alguns genuinamente empíricos, enquanto que outros não mais do que absurdas combinações de palavras devidas confusões gramaticais". La Lógica sin Metafísica. Madrid, editorial tecnos, 1961, p. 179. []
  23. The Blue and Brown Books, p.27. Ver também: M. Cacciari, op. cit., p.89. []
  24. Philosophical Investigations, p.47, §109. []
  25. "For there seemed to pertain to logic a peculiar depth — a universal significance. Logic lay, it seemed, at the bottom of all the sciences. For logical investigation explores the nature of all things. It seeks to see to the bottom of things and is not meant to concern itself whether what actually happens is this or that. It takes its rise, not from an interest in the facts of nature, nor from a need to grasp causal connexions: but from an urge to understand the basis, or essence, of everything empirical. Not, however, as if to this end we had to hunt out new facts; it is, rather, of the essence of our investigation that we do not seek to learn anything new by it. We want to understand something that is already in plain view. For this is what we seem in some sense not to understand." Id., p.42, §89. []
  26. Id., p. 50, §126. []
  27. Art. cit., p.223. []

Privacidade, Desaparecimento e Internet…

Tenho uma visão muito pessoal sobre o tema "privacidade". Gosto de dizer que o senso comum não é sacrossanto para nada, muito menos para questões éticas e políticas. Privacidade virou uma dessas palavrinhas mágicas na Sociedade da informação. Não se sabe bem o porquê, nem como, mas todos querem defender a privacidade de si e dos outros. E geralmente estes paladinos acordam escrevendo no twitter e nas redes sociais, o que fizeram no café da manhã, a roupa que escolheram...

Nosso texto constitucional é sábio: ele fala em "direito à intimidade"1 — nossa primeira Constituição republicana de 1891 asseverara no seu artigo 71 que "a casa é o asylo inviolavel do individuo"2; salvo melhor juízo a palavra privacidade inexiste na Lei maior e em grande parte em nosso ordenamento jurídico. Presta-se a cuidar do direito à intimidade.No entanto, talvez comece lentamente a invadi-lo, mas entrará em grande parte aí de contra-bando. É tema importado da cultura norte-americana, que é profundamente individualista e que concebe a vida social de forma atomizada. Nada mais comum hoje do que transformar o assunto privacidade de forma obsessiva. E acabamos por repetir mecanicamente tal obsessão...

O exagero da "privacidade" leva à atomização e ao isolamento, ou mesmo, ao individualismo. O assunto vai longe. E aqui só quero provocá-lo com algumas anotações. O individualismo é uma experiência relativamente recente na história da humanidade, e se confunde com sociedade burguesa, até então a vida era dominantemente comunitária, coletiva, clânica. Lembro sempre de certo paradoxo do freudismo: a humanidade abriu mão da liberdade, dos instintos para ter a segurança da Civilização, da vida comunitária. Bauman resume tal paradoxo ao dizer3:

«O privilégio de "estar em comunidade" tem um preço: e somente é inofensivo, inclusive invisível, enquanto a comunidade continue sendo um sonho. O preço que se paga na moeda da liberdade, denominada de forma diversas como "autonomia", "direito à auto-afirmação" ou "direito de ser a si mesmo". Escolha o que escolher, algo se perde algo se ganha.»

Note que falo aqui de uma defesa exagerada, quase obsessiva. Se nada compartilho, nada divido, por fim, me isolo, atomizo — a vida em comunidade, nosso ser-com pressupõe uma certa invasão e doação. Assim, uma rede social pode ser exatamente o inverso, ou seja, a negação de indivíduos atomizados. É evidente que o uso comercial, não autorizado, não desejado de meus dados e informações pessoais é condenável (num outro post falei sobre PL que debate o uso não autorizado de nossas minúcias biométricas).

Habermas tem razão ao afirmar que nossa identidade brota de nossa alteridade, nasce de nossas relações com os outros.

«Somente numa rede de relações de reconhecimento recíproco pode uma pessoa desenvolver e reproduzir em cada caso sua própria identidade.» 4


Bizarrice maior a meu ver é o tal direito ao esquecimento ou ao "desaparecimento digital", ou coisa que o valha. Não sei se o leitor conhece a Hemeroteca Digital mantida pela Biblioteca Nacional. Convido-o a visitar, pois é o registro digital da maior parte do jornais de nosso país nos séculos passados, digitalizados e com direito à pesquisa por OCR.

Nessa horas penso: ainda bem que ninguém no século XIX defendia o tal direito (entre aspas, por favor) ao desaparecimento.


Referência:

  How To Disappear When Someone's Spying On You; 'Privacy Wear' Comes To Market - Radiolab.

 
Revisão v. 1.2
 
  1. Art 5o., X, "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação" []
  2. Consultar http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao91.htm []
  3. Community: Seeking Safety in an Insecure World. Polity Press: 2001, I []
  4. Habermas, Ética do Discurso []
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